O leitor talvez tenha atentado para a ausência de notícias nas edições mais recentes sobre a pandemia de Covid-19 que assola o mundo.

Isso tem um propósito. E não é fingir que o mal não existe. Nem tampouco desviar a atenção para temas mais leves e esquecer um pouco do problema – o que até pode ser um efeito colateral desejável.

O que acontece é que esse é um campo minado, cujo mínimo desvio da informação pura pode levar a perigosas interpretações que levam um fato questionado ou uma opinião escapulida a lançar o seu emissor à brasa ou ao espeto.

É muito triste ver um país ainda dividido diante de um problema de saúde inerente a todos e colocado em segundo plano, para prevalecer a disputa política calcada no viés de confirmação.

Traduzindo: se você defende o isolamento social, é automaticamente contra a economia. Se precisa trabalhar para manter sua renda, está contra os governadores. Se não gosta da cloroquina, é contra o presidente. Se gosta do presidente, é contra a ciência.

Essas associações que deveriam soar absurdas compõem boa parte da nossa realidade atual.

É praticamente impossível passar incólume às críticas ao emitir qualquer opinião que seja, e não falamos das críticas sensatas, que fundamentam a boa dialética. Mas o desabono preconceituoso e arbitrário que coloca em embate todos que não compartilham do seu pensamento ou não “torcem pelo seu time”.

O que essa divisão está fazendo conosco é nos manter no meio da confusão, mexendo com os nervos, tornando difícil enxergar além desse nevoeiro uma saída consensual.

Os relatórios e boletins estão aí em toda mídia, diariamente, atestando nossa incapacidade de nos organizar como sociedade e lidar de forma ética e eficiente com o problema. Os números aumentam, dia a dia, confirmando o resultado da nossa indecisão.

Lagoa começou bem, tomando cuidado, evitando excessos. Depois relaxou, perdeu a noção do perigo, até porque as consequências não estavam por perto. E ainda hoje, com mais de sessenta casos confirmados (isso levando em conta o que se pode testar) não temos um plano. Temos ações pontuais, reativas, que dependem do que a pandemia faz conosco.

Planejamento nunca foi o ponto forte da administração municipal, não é de se estranhar que estejamos correndo atrás o tempo todo.

Mas é triste perceber que com tantas experiências pelo mundo sobre isso, com tantos estudos médicos, artigos científicos e notícias em tempo real ao alcance das mãos, literalmente na tela dos nossos celulares, a gente prefira fincar o pé numa concepção própria, intransigente, inquestionável e defendida além dos limites do razoável e do racional. Só para ter um lado pra brigar.

Não estamos ligados que o “outro lado” não é o nosso semelhante. É a ameaça contra a nossa saúde, nossa economia, nossa vida que costumava ser normal.

E, de verdade, já estamos envolvidos demais pra voltar atrás nisso aí. Seria preciso muita humildade e bom senso.

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